Sim, dentro de limites bem definidos. A Anvisa autorizou os recursos de Teste de Audição e Aparelho Auditivo dos AirPods Pro no Brasil, e usar os AirPods como aparelho auditivo é indicação oficial da própria Apple para adultos de 18 anos ou mais com perda auditiva percebida de grau leve a moderado. O que a autorização não permite é chamar isso de diagnóstico: o teste embutido é uma triagem por via aérea, com limite de medição de 85 dB HL, e não distingue as perdas auditivas que têm tratamento clínico daquelas que não têm.
O que você vai ver neste post
- O que a Anvisa aprovou, exatamente
- O que os AirPods fazem bem
- O que eles não fazem
- Para quem pode servir e para quem não serve
- Fiz o teste e deu alteração. E agora?
- Perguntas frequentes
O que a Anvisa aprovou, exatamente
Foram duas autorizações separadas, não uma. O Teste de Audição passou pela Anvisa em janeiro de 2025 e o Aparelho Auditivo em fevereiro, com registro em nome da importadora Emergo Brazil Import. Ambos chegaram aos usuários brasileiros em 25 de março de 2025, segundo o anúncio da própria Apple. Antes disso, em setembro de 2024, o FDA já havia autorizado o recurso pela via De Novo como o primeiro software de aparelho auditivo de venda livre do mercado.
Uma autorização dessas não é selo de equivalência a um aparelho auditivo adaptado por profissional. É a permissão para comercializar um dispositivo médico dentro de uma indicação escrita, e essa indicação está no documento regulatório da Apple: amplificar som para pessoas de 18 anos ou mais com perda auditiva percebida de grau leve a moderado, em venda livre, com ajuste feito pelo próprio usuário. O que estiver fora dessa faixa está fora do que foi aprovado. Vale registrar ainda que o recurso de Proteção Auditiva, que reduz picos de ruído, continua indisponível no Brasil. O fone amplifica, mas não protege.
O que os AirPods fazem bem
Reconhecer o mérito da tecnologia é parte de avaliá-la com honestidade, e o mérito é real.
O primeiro ponto é o acesso: os AirPods Pro 3 custam R$ 2.699 no site da Apple Brasil em agosto de 2026, e boa parte de quem ativa o recurso já tinha o fone por outro motivo. O segundo é o estigma, que no consultório pesa mais do que se admite: ninguém olha duas vezes para alguém de fone de ouvido, e essa neutralidade remove uma barreira que trava decisões por anos, como discutimos no texto sobre quando é hora de usar aparelho auditivo.
O terceiro ponto é técnico. O Teste de Audição foi validado em estudo clínico com 202 participantes, comparado à audiometria tonal de referência conduzida por fonoaudiólogo, com desvio absoluto mediano de 1,81 dB HL na média de quatro frequências. A concordância na classificação do grau de perda foi de 86,4% para categoria idêntica e de 100% dentro de uma categoria de diferença. O ajuste feito pelo próprio usuário também se sustentou: em estudo de 31 dias com 118 participantes com perda leve a moderada, o benefício percebido foi comparável ao de quem recebeu adaptação profissional do mesmo dispositivo. Os dados estão nas instruções de uso do recurso, publicadas pela Apple como parte do dossiê regulatório.
A leitura clínica mais justa é esta: o recurso é um bom rastreio inicial. Ele coloca no radar de milhares de pessoas uma pergunta que elas adiavam há anos.
O que eles não fazem
Aqui começam os limites, e eles não são detalhes.
O teste é triagem, não diagnóstico. A especificação técnica da própria Apple classifica o recurso como audiômetro Tipo 4, de condução aérea, com faixa de 250 a 8000 Hz e limite superior de medição de 85 dB HL. O Tipo 4 é a categoria que a norma IEC 60645-1 reserva a equipamentos de triagem. E “condução aérea” é a parte que mais importa: sem pesquisa por via óssea, o exame não separa perda condutiva de perda neurossensorial. Rolha de cerume, otite média com secreção, perfuração timpânica e otosclerose podem desenhar uma curva parecida com a de uma presbiacusia. A diferença é que várias dessas causas têm tratamento, e amplificar o som apenas as mascara.
Não atendem perda severa nem profunda. O documento regulatório é explícito: acima da categoria moderada, o recurso pode não oferecer benefício suficiente. As faixas seguem a classificação da Organização Mundial da Saúde, pela média de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz.
| Classificação | Média de quatro frequências |
|---|---|
| Pouca ou nenhuma perda | até 25 dB HL |
| Perda leve | 26 a 40 dB HL |
| Perda moderada | 41 a 60 dB HL |
| Perda severa | 61 a 80 dB HL |
| Perda profunda | acima de 80 dB HL |
Não há molde nem verificação no ouvido. A adaptação profissional não termina na prescrição do ganho: inclui medir o que de fato chega ao tímpano daquele paciente e corrigir a diferença. Isso não existe no fluxo do fone, que trabalha com ponteiras universais em quatro tamanhos e ganho estimado a partir do audiograma.
A autonomia é de horas, não de um dia. A Apple informa até 10 horas no modo Aparelho Auditivo nos AirPods Pro 3, número respeitável para um fone. Só que aparelho auditivo se usa das 7h às 22h, todos os dias, e a conta não fecha.
Não tratam a causa. A frase está no próprio documento da Apple: o aparelho não restaura a audição normal e não previne nem melhora a condição médica que causou a perda.
Para quem pode servir e para quem não serve
Pode servir para o adulto com perda leve a moderada já identificada, simétrica, estável, sem sintoma associado, que quer ouvir melhor em situações pontuais e ainda não se sente pronto para uma adaptação definitiva. Nesse perfil, é um passo intermediário legítimo.
Não serve para quem apresenta qualquer um dos sinais abaixo. A lista é da própria Apple, e em todos os casos a orientação do fabricante é procurar um profissional, de preferência otorrinolaringologista, antes de usar o recurso:
- Saída de sangue, pus ou secreção pelo ouvido nos últimos seis meses
- Dor ou desconforto no ouvido
- Muita cera ou sensação de que algo obstrui o canal
- Tontura frequente ou sensação de rodar
- Audição que mudou de repente nos últimos seis meses
- Audição que piora e melhora de forma alternada
- Audição pior em um dos ouvidos, ou zumbido em apenas um ouvido
- Idade abaixo de 18 anos
- Malformação ou alteração no formato da orelha
Se você chegou aqui porque percebeu os sinais de perda auditiva em um familiar idoso, vale um alerta. Perda de longa data em idoso raramente é leve e costuma vir com dificuldade de compreensão de fala que a amplificação sozinha não resolve. O fone tende a frustrar, e a frustração custa caro: reforça a ideia de que “aparelho não adianta” e adia o tratamento por mais anos.
Fiz o teste e deu alteração. E agora?
O resultado fica salvo no app Saúde como audiograma completo. Leve esse arquivo para a consulta em vez de descartá-lo: é um ponto de partida legítimo e ajuda a comparar a evolução ao longo do tempo. Vale um cuidado de leitura: congestão nasal, resfriado e exposição a som alto nas 24 horas anteriores alteram o resultado, então um teste feito em plena gripe não serve como referência.
O que a audiometria completa acrescenta é justamente o que o fone não mede. A meatoscopia olha o canal e o tímpano antes de qualquer som ser apresentado. A pesquisa por via óssea separa problema de condução de problema neurossensorial. A logoaudiometria mede compreensão de fala, e não só detecção de tom puro, que é a diferença entre “eu escuto” e “eu entendo”. A imitanciometria avalia orelha média e reflexos. E a anamnese é onde aparecem exposição ocupacional a ruído, medicação ototóxica e histórico familiar. Nada disso cabe em cinco minutos de teste em casa, e é a combinação dessas etapas que define conduta. Para quem já chegou a esse ponto, o texto sobre onde fazer audiometria em Belo Horizonte resume o que levar no dia.
Perguntas frequentes
AirPods podem substituir o aparelho auditivo?
Não como substituição definitiva. A indicação autorizada cobre adultos com perda leve a moderada, sem molde, sem verificação no ouvido e com autonomia de até 10 horas. Para perda severa ou profunda, perda assimétrica ou uso o dia inteiro, o recurso não foi projetado nem aprovado para essa finalidade.
O teste de audição do AirPods é confiável?
Como triagem, sim. Foi validado em estudo com 202 participantes contra audiometria de referência, com desvio mediano de 1,81 dB HL. Mas é um audiômetro Tipo 4 de condução aérea, categoria destinada a rastreio. Ele indica que algo merece atenção, não qual é a causa.
Preciso de avaliação profissional para usar o recurso de Aparelho Auditivo?
Não é exigido, porque a autorização é de venda livre e o ajuste é feito pelo usuário. Ainda assim, a própria Apple lista sinais que pedem consulta prévia, como dor, secreção, tontura, perda súbita e audição pior em um dos ouvidos. Nesses casos, procure avaliação antes.
O recurso funciona em qualquer modelo de AirPods?
Não. No Brasil, o Teste de Audição e o modo Aparelho Auditivo funcionam nos AirPods Pro 2 e nos AirPods Pro 3, com firmware atualizado e pareados a um iPhone ou iPad compatível. O recurso de Proteção Auditiva, disponível em outros países, segue indisponível por aqui.
Usar AirPods como aparelho auditivo pode piorar minha audição?
Não há evidência de que o uso dentro da indicação piore a audição. O risco maior é indireto: adiar a investigação de uma causa tratável, como rolha de cerume, otite ou perda súbita, porque a amplificação deu a impressão de que o problema foi resolvido.
Vamos avaliar sua audição
A tecnologia fez algo que o setor não conseguiu em décadas: tirou o assunto do armário e colocou a pergunta na mão de quem precisava fazê-la. Isso é um ganho, e não faz sentido tratá-lo como ameaça. O erro é confundir o começo do caminho com a chegada. Um audiograma de triagem alterado é a informação de que vale investigar, não a resposta sobre o que fazer.
Na Maví, a avaliação é completa e conduzida por fonoaudióloga, com a escuta da história e da rotina de cada paciente antes de qualquer conduta. Se houver indicação de aparelho, o processo continua no acompanhamento, que é o que decide se o dispositivo será usado ou vai parar na gaveta. Se você já está pesquisando custos, vale conferir também o que o plano de saúde cobre.
Estamos na Rua Guaicuí, 297, Loja 1, no Luxemburgo, em Belo Horizonte. Agende sua avaliação auditiva pelo WhatsApp.
Revisão técnica: Fga Emanuelle Tarabal, CREFONO 6974-3, fonoaudióloga responsável pela Maví Centro Auditivo.
Última atualização: 12 de agosto de 2026.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a avaliação presencial de um profissional habilitado. Nenhum dispositivo trata a causa de uma perda auditiva sem investigação prévia.

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